sexta-feira, 29 de junho de 2018

Artes - A Tempestade - Poesia Portuguesa

Foto de Fabian Stamate - Nazaré, Portugal

O sons, as imagens e as emoções provocadas pela tempestade marítima são constantes na transversalidade da poesia através das épocas. A sonoridade da tempestade, o rugido, o bramar, o ranger, o estrondo da trovoada, o crepitar e o traçado dos relâmpagos, as imagens, as torres de nuvens espessas, as montanhas e serras de ondas avassaladoras, a negrura noturna, o vento furioso, caraterizam invariavelmente a descrição poética da tenebrosa tempestade no mar. De modo geral a tempestade marítima é uma batalha entre os elementos do ar, da água e da luz, que parece intentar destruir o próprio mundo:

(…) Agora sobre as nuvens os subiam,
As ondas de Netuno furibundo;
Agora a ver parece que desciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro, Bóreas, Aquilo queriam

Arruinar a máquina do mundo (…)
ou:
(...) Como em fera batalha, os Elementos
A vingarem-se huns de outros se resolvem,
Que agoas contra agoas, ventos contra ventos,
O mar com o Ceo, o Ceo com o mar involvem.
Com nuvẽs, & relampagos violentos
As areas do fundo se revolvem (…)
ou ainda
(...) Levanta lá no céu furiosas ondas;
Austro bramando corre ali com fúria,(...)
Rompe-se por mil partes o céu, e arde
Em ligeiro, apressado, vivo fogo.
Um rugido espantoso vai correndo
Desde o Antárctico Pólo ao seu oposto.
Arremessam-se lanças pelos ares
De congelada pedra em água envolta;
Com espantoso ímpeto, e rasgadas
As densas negras nuvens raios cospem (...)


Neste combate das forças impessoais encontra-se inevitavelmente o homem envolvido em medo e foge toda a natureza viva sob o poder destruidor dos elementos embravecidos:
As Alcióneas aves triste canto
Junto da costa brava levantaram,
Lembrando-se do seu passado pranto,
Que as furiosas águas lhe causaram.
Os delfins enamorados entretanto
Lá nas covas marítimas entraram,
Fugindo à tempestade e ventos duros,

Que nem no fundo os deixa estar seguros.

Trata-se de um cenário terrível, transcendente às forças humanas. Passar nessa paisagem revolta em fúria é abeirar-se da morte e brevemente dá-la como certeza. A fragilidade do humano perante a morte torna-se evidente. O seu soçobrar ou a sua sobrevivência são suas questões permanentes durante a tempestade. Os elementos surgem desalinhados daquilo que é o próprio e possível do viver humano. E o seu saber, a sua perícia, não é garantia de salvação. Na tempestade marítima «nas águas tempestuosas e letais (…) perdem, engolem e matam» (J.Cândido Martins) e apenas há abrigo na suma fragilidade do navio envolto em forças que o transcendem e na arte da navegação, mas só enquanto assiste tal possibilidade sempre pronta a desfazer-se pela guerra elemental da tempestade.
O vento endoidecido, a chuva violenta, o mar encapelado, o fulgor estrondoso dos relâmpagos, suas sonoridades, em que tudo é surpreendentemente grandioso e avassalador, constituem um extremo do possível, vive-se uma exceção da existência, mais além do que a natureza tem de ser para que o homem seja possível. E, no mar, o abrigo perante os elementos é muito mais frágil, propiciando o espanto e o terror perante a realidade de que a sobrevida humana de si mesma pouco dependa – como se pode viver num cenário além da força humana? Quando

(…) os ventos que lutavam
Como touros indómitos bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam (...)
Relâmpados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vêm representando
Cair o céu dos eixos sobre a terra,


Consigo os elementos terem guerra.(...)

ao homem cabe seguir sua arte e ciência, a navegação, porém, à vista das Parcas que tecem talvez o final abrupto da tecedura de nossos humanos dias. Eis quatro breves descrições de uma desordenada natureza antagonista da possibilidade da vida humana:

Sibila o vento: os torreões de nuvens
Pesam nos densos ares:
Ruge ao largo a procela, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A imensa vaga ao longe vem correndo
Em seu terror envolta;
E, dentre as sombras, rápidas centelhas
A tempestade solta.
(...)

Ou, vinda de uma época mais distante:


(...) Eis manso e manso as nuvens se entumecem,
Eis o líquido pêso
Rompe os enormes carregados bôjos, (...)
Rebentam furacões, flamejam raios,
O estrondoso trovão no céu rebrama,
(...) a procela [tormenta] horríssona recresce,
Tingem sombras do inferno os véus da noite
Que o relâmpago retalha:
Braveja o mar, aos astros se remontam
Serras e serras da fervente espuma;
Carrancudos tufões arrebatados
Dobrando a força, a raiva, lutam, berram
E revolvem do pélago [abismo] as entranhas; (…)


Com maior distanciação temporal também apresentamos esta versão da tempestade:
Cobre-se o céu de grossas negras nuvens,
Os ventos mais e mais cada hora crescem,
Já se escurece o céu, já com soberba
Inchadas grossas ondas se levantam.
A nau começa já passar trabalho,
Já começa gemer, e em tal afronta
O apito soa, brada o mestre, acodem
Com presteza varões no mar expertos.
Põe-se o fero Vulturno junto ao cabo,
Levanta lá no céu furiosas ondas;
Austro bramando corre ali com fúria,
Dando um balanço à nau que quase a rende,
Vem com grande furor Bóreas raivoso,
Comete por davante, o passo impide,
Encontra as grandes velas, e, por força,
Ao mastro as pega e a nau atrás empuxa:
Rompe-se por mil partes o céu, e arde
Em ligeiro, apressado, vivo fogo.
Um rugido espantoso vai correndo
Desde o Antárctico Pólo ao seu oposto.
Arremessam-se lanças pelos ares
De congelada pedra em água envolta;
Com espantoso ímpeto, e rasgadas
As densas negras nuvens raios cospem:
De um golpe as velas vêm todas abaixo.

Jerónimo Corte-Real (Typografia Rollandiana,1783-1574)

São constantes as fórmulas da descrição! Sinteticamente, é um desordenado inferno que se representa na tempestade (Brás Garcia Mascarenhas, 1699), um caos, uma desordem incontida que ultrapassa o poder de escolha humano, eventualmente sobrepondo-se à arte de navegar:
Eis o mestre, que olhando os ares anda,
O apito toca: acordam, despertando,
Os marinheiros dũa e doutra banda,
E, porque o vento vinha refrescando,
Os traquetes das gáveas tomar manda.
«Alerta (disse) estai, que o vento crece
Daquela nuvem negra que aparece!»

Não eram os traquetes bem tomados,
Quando dá a grande e súbita procela.
«Amaina (disse o mestre a grandes brados),
Amaina (disse), amaina a grande vela!»
Não esperam os ventos indinados
Que amainassem, mas, juntos dando nela,
Em pedaços a fazem cum ruído

Que o Mundo pareceu ser destruído!

Podemos verificar a pregnância das noções que a tempestade marítima nos provoca, primeiro, a semelhança intemporal nas descrições, a tempestade é um combate de gigantes, entre elementos naturais: forças desumanas, segundo, o olhar que a tempestade marítima devolve sobre nós acerca de nossa fragilidade em meio tão agressivo, terceiro, as analogias que propicia relativamente à nossa vivência em subjetividade (como o mar nos embravecemos, por exemplo, ultrapassando a ordem que o homem tem de trilhar devido à sua inteligência e necessidade de profícua sociabilidade).
Se permanece bem caraterizada a fragilidade humana - e nisto a nossa dependência última do que nos é transcendente -, se permanece também entre os terrores a necessidade de segurar o medo que nessas condições desponta, querendo comandar a razão – se algum espaço para ela há – será então esta a sua mais forte garantia, mas se, contudo, para ela não há espaço nem arte que valha, contudo, então apenas a esperança poderá resistir:

(...) Fragil taboinha, que o bater das ondas
Póde num so momento
Fazer em mil pedaços!
Ai de mim! Trinta vezes no horizonte
O pae das luzes despontou radioso,
E co'a tocha brilhante
A meus cançados olhos
Nada mais amostrou que o quadro imenso
De soledade infinda, – os ceus e os máres! (...)

Almeida Garrett (Sustenance e Stretch, 1829)

Ainda no seguimento do disposto por Almeida Garrett relativamente à solidão humana na sua fragilidade, de onde brota a esperança sobre todas as dificuldades, a tempestade no mar ajuda também a reconhecer outras batalhas travadas na subjetividade humana, interiormente. Esta analogia das tempestades com a subjetividade humana foram também tratadas por Francisco Pina de Mello e Fernando Rodrigues Lobo 'Soropita':

No mar em que de novo amor me guia,
O mais seguro porto e dar a costa;
Aonde todos se perdem, ai esta posta
Minha salvação, ai me salvaria.
So fe me há-de salvar nesta porfia
Do vento, que contrario vem de aposta;
E pois sua mor perda e dar a costa
Comigo, eu com costa me queria.
Que vai ja o querer, aonde a ventura
Criou tão desigual merecimento?
Valha-me pura fe, vontade pura!
Valha-me navegar meu pensamento
Com tal estrela, cuja formosura

Abranda o duro mar de meu tormento.
Fernão Rodrigues Lobo 'Soropita' (Campo das Letras, 2007)
e em Francisco Pina de Mello:
Que bravo o mar se ve! Como se ensaia
Na furia e contra os ares se rebela!
Como se enrola! Como se encapela!
Parece quer sair da sua raia.
Mas tambem que inflexivel, que constante
Aquela penha esta a forca dura
De tanto assalto e horror perseverante!
O empolado mar, penha segura,
Sois a imagem mais propria e semelhante

De meu fado e da minha desventura.
Francisco Pina de Mello (Off. de Joseph Antunes da Sylva, 1727, 2ed)
Já em António Ferreira é considerada como uma demasia os arrojos humanos pelos oceanos, numa fala que é semelhante à do Velho do Restelo, a sensatez e o acometer feitos estão na balança, ganhando a primeira:
(…) meu irmão, metade
da minha alma (...) [que] tornes vivo, e são
do fogo, e tempestade
a que se aventurou c'o esprito ousado.
Vença à dura fortuna a boa tenção.

Quem cometeu primeiro
ao bravo mar num fraco pau a vida
de duro enzinho, ou tresdobrado ferro
tinha o peito, ou ligeiro
juízo, ou sua alma lh'era aborrecida.
Dino de morte cruel no seu mesmo erro.

Esprito furioso
que não temeu o pego alto revolvido
(entregue aos ventos, posto todo em sorte)
do sempre tempestuoso
Áfrico, nem os vaus cegos, e o temido
Cila infamado já com tanta morte!

A que mal houve medo
quem os monstros no mar, que vão nadando,
com secos olhos viu? Que o céu cuberto
de triste noite, e quedo
sem defensão, c'o corpo só esperando
está a morte cruel, que tem tão perto?

Se Deus assi apartou
com suma providência o mar da terra,
que a nós, os homens, deu por natureza,
como houve homem que ousou
abrir por mar caminho mais a guerra
qu'a paz, e a morte mais, roubo e crueza?

Que cousas não cometes,
ousado esprito humano, em mar, e em fogo
contra ti só diligente, e ingenioso?

Que já te não prometes,
des qu'o medo perdeste à morte, e em jogo
tens o que de si foi sempre espantoso?

Um o céu cometeu;
outro o ar vão experimentou com penas
não dadas a homem; outro o mar reparte
que por força rompeu.
Senhor, que tudo vês, que tudo ordenas,

pera Ti só chegarmos dá-nos arte.




António Ferreira, «A ûa nau d'armada em que ia seu irmão Garcia Fróis»



Poemas Lusitanos, 1598

Todavia, não são apenas formados de ousadia temerária tais empreendimentos marítimos, pois as duras experiências e a morte iminente podem transmutar os terrores na revelação de um valor imortal para o homem, enquanto este se realiza no trabalho em meio das dificuldades, mostrando firmeza no Amor que dedica à sua função, ao seu trabalho, apesar das contrariedades com fatais perfis. Camões proporciona nas suas Rimas, pela fala do Capitão Themioscles, o ganho de uma afinação imortal para o homem que permanece na sua função ante sua iminente morte - «vendo a morte diante de mim» -, enquanto o seu objetivo ainda está longe, como se dissesse: feliz o homem que a morte o surpreende trabalhando. Só nestas extremas condições é apurado o Amor: «Ali Amor mostrando-se possante / e que por nenhum modo não fugia, / – mas quanto mais trabalho, mais constante – ». Consideremos o excerto do poema que expõe mais completamente esta ideia:

(...) As cordas, co ruído, assoviavam;
os marinheiros, já desesperados,
com gritos para o Céu o ar coalhavam.

Os raios por Vulcano fabricados
vibrava o fero e áspero Tonante,
tremendo os Pólos ambos, de assombrados!

Ali Amor mostrando-se possante
e que por nenhum modo não fugia,
mas quanto mais trabalho, mais constante – ,

vendo a morte diante de mim, dizia:
«Se algûa hora, Senhora, vos lembrasse,
nada do que passei me lembraria».

Enfim, nunca houve cousa que mudasse
o firme Amor do intrínseco daquele
em cujo peito ûa vez de siso entrasse.

Ûa cousa, Senhor, por certo asssele:
que nunca Amor se afina nem se apura,

enquanto está presente a causa dele.(...)

LVCamões, «O poeta Simónides, falando», Rimas,
(excerto da fala do Capitão Themioscles) 1953-1595


publicado originalmente no Jornal da Economia do Mar