segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Imagens de Portugal




«(...) Lisbonne m'est apparue comme une sorte de paradis clair et triste;»
Antone de Saint-Exupéry, Oeuvres, «Lettre à un Otage» (1940), Paris, Gallimard, Pléiade, 1959, pág. 389

sábado, 19 de novembro de 2016

Leonard Cohen - So Long, Marianne

Poética dos Mares V

in JEM



Mar, êxtase e sagração


«Primeiro dia», «clareza», «primeiro amor», «inteireza», «praia extasiada e nua», são algumas das expressões que nos abrem para uma textualidade indicadora de um sujeito poético que ouviu, viu e foi transportado numa praia atlântica e sagrada, num aqui e agora maravilhoso, num tempo e liberdade apaixonantes, de lúcidez exuberante:

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim, 2013-1958)

A noção de perfeição acontece através contemplação marítima, emergindo uma transformação da qualidade temporal, dispondo um sujeito que transcende a temporalidade vulgar, cujo início são as musicalidades do mar:

(...) Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen (Morais, 1962)

A alteração qualitativa, no modo de sentir e ver, acontece pelo subir da musicalidade do mar na consciência que se extasia, manifestando um acontecimento que vai descobrindo-se em espaço separado da agitação trepidante, discordante e dissonante. É o êxtase poético... que abre o sagrado e novo espaço, então oculto, porém pela poesia recriado, renovador e identitário.
Um terceiro momento desta iniciação ao mistério que o mar proporciona acontece numa recorrente e perene intuição em vários poetas: a subida do mar ao céu, criando a fusão do mar com o céu, onde este se espelha e se poderia identificar, na confusão entre o mar em baixo e o céu de em cima. Na metafórica subida do mar ao céu, é evocada a transmutação do estado subjetivo, do consabido para o lírico, onde a visão passa a conhecer cada momento como novo. É exemplar para uma demonstração este excerto:

.... O mar sobe ao céu
(...)
Hoje é o dia
o momento
a hora inadiável.
Cada dia
é o derradeiro sopro
da flauta da Criação.(...)
José Fanha (Campo das Letras, 2002)

Eis o mundo de novo desocultado, revelado junto ao mar e separado do buliçoso mundo. Instaura-se uma densidade temporal alternativa, que atestada por experiência e memória únicas, revela o inefável a partir do marítimo:

(...) Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos!
Assim puro,
Assim azul,
Assim salgado...
Milagre horizontal
Universal,
Numa palavra só realizado.
Miguel Torga (D. Quixote, 2011-1968)

E nesta transmutação até ao inefável, o verbo poético propicia perante a exaltação e imensidão do mar, a perspetiva de um vaso humano pequeno e recipiente, apenas como uma

(...) Estreita taça

A transbordar da anunciação

Que às vezes nas coisas passa.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim, 2013-1938)

O imenso e o inefável é já caminho do poeta, desde a orla da praia, por um jardim à beira-mar, num trajeto que vai além de um antes já conhecido e que, depois, súbita e abruptamente se encontra num plano de referenciação novo. Nesta passagem por passos distintos e sequenciais alça-se o poeta à experiência de um ser purificado, como num puro amor primeiro, num claro viver e saber, numa tão clara impressão que nenhuma outra semelhante lhe veio à vida. A força, a originalidade e ineditismo, a surpresa e o arroubo de tal experiência marítima e poética se constituirá em lembrança permanente, e nunca mais poderá ser obliterada da história pessoal:

(…) Ó claras Ninfas! Se o sentido
em puro amor tivestes, e inda agora
da memória o não tendes esquecido;
(…) lembranças, que me acompanhavam
pola tranquilidade da bonança,
nem na tormenta grave me deixavam.
Luís de Camões, in Lírica (1595)

Os carateres do mar, as suas distinções entre as realidades, sua índole, seus sinais e símbolos, os aspetos de seu existir, sua beleza diversa e medonhas faces, torna-o em espaço privilegiado de entrada a um diferenciado acontecer subjetivo. Desde a orla do mar, onde se convolou a perceção do ordinário dia ao espetáculo do novo, o caminho verte-se então para o centro na subjetividade criadora, à semelhança da arte antiga e erudita, como outrora Delphos o fora para a Hélade:

Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo recto
Da construção possível
Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla
Desde a sombra do bosque desde a orla do mar
Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen (Caminho, 2011-1972)


Esse centro permanecerá em símbolos como vértice interior à vivência poética e humana. Um grito, como o relâmpago puro que fere, rompe e estremece a existência, revela a humanidade em sua nudez, onde apenas é querendo, perseguindo e indagando a selvagem exaltação das ondas:


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua
.
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
Sophia de Mello Breyner Andresen (Companhia das Letras, 2004-1944)

A partir desse grito, emitido noturnamente na praia extasiada e nua, depois de nos embrenharmos pela audição do antigo cântico do mar, se fez ouvir então um cântico, quiçá com lágrimas, o

(...) cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada
Sophia de Mello Breyner Andresen (Caminho, 2004-1997)


Esta música marítima pode abrir a consciência fora dos limites da ordem do dia. A vida humana perpassa, ainda que breve, por acontecimentos inolvidáveis, e se o horizonte puro, sagrado, é aberto ao sujeito poético junto ao mar e propicia o êxtase:

Onda de sol, verso de ouro,perífrase vã. Extasiar-me,
antes, por esta fusão,
mistura de brilhos. Ou, ainda
mais íntima, a consciência
extensa como o céu, o corpo de tudo,
semelhança absoluta. Respirar
n
a quebra da onda. Na água,
uma braçada lenta
até ao limite de mim.

Fiama Hasse Pais Brandão (Assírio & Alvim, 1989)

A partir deste espaço poético, desde a orla do mar e de suas musicalidades, onde o êxtase é possível na consciência tocada pelo inefável, começa uma consciência extensa como o céu, onde tudo começou intacto como num primeiro dia, e onde outro nasceu de tudo quanto viu (Sophia de Mello Breyner Andresen, Caminho, 2010-1972), aí

Tudo era claro:
céu, lábios, areias,
O mar estava perto,
fremente de espumas,
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves – só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.
Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim, 2013-1961)


Contudo, não podemos aceder a esta experiência sem passar no jardim marítimo. Junto ao mar há um jardim, milagrosamente debruçado sobre a imensidão de mar que o limita, um jardim suspenso sobre o mar, e contra este jardim à beira-mar vem toda a cavalgada marítima:

Vi um jardim que se desenrolava
Ao longo de uma encosta suspenso
Milagrosamente sobre o mar
Que do largo contra ele cavalgava
Desconhecido e imenso.
(...)
Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim, 2013-1938)


É um jardim inóspito, metáfora da vivência humana perante o mar, lugar apenas onde perduramos, perante a convivência com a enormidade da grandeza e das suas potências dramáticas, líricas e trágicas. As flores desse jardim são selvagens e duras, têm cactos torcidos, tem areia branca e rochas escuras, pinheiros magros, ali passa o vento áspero e salgado. A devastação é operante e sinaliza a indomável violência do mar. É um jardim passagem obrigatória à proximidade do mar. É um lugar semidesértico, inabitável, próximo da morte, tanto pelos duros elementos como por um obscuro tormento, pela exaustão onde termina o aconchego humano, e paradoxal, onde morre a fala pelos mil esplendores de que o mar se reveste em cada hora (Sophia de Mello Breyner Andresen, Assírio & Alvim, 2013-1938). A partir deste quadro existencial, com o mar imenso e musical em frente, se pode reconhecer melhor a profundidade e a pujança das forças anímicas que o mar liberta e proporciona simbolicamente à nossa disposição humana. A este respeito atente-se neste excerto da prosa de Herculano: «(…) [O] vento e o oceano são as duas únicas expressões sublimes do verbo de Deus, escritas na face da Terra quando ainda ela se chamava caos. (…). Que tinham eles [os homens], de feito, com essas [suas] existências, mais passageiras e incertas que as correntezas de um e que as ondas buliçosas do outro?» (Alexandre Herculano, Euríco, o Presbítero, Edi9, 2010). A existência de uma desmesurada imensidão em correnteza buliçosa, violenta e sem sentido, é a representação do mar e de uma divindade mais antiga que a criação do homem, numa existência em pureza e inutilidade. A existência do mar está mais perto do divino primordial e sem rosto. O mar, como natureza que antecede o homem, voga sem alguma teleologia que o enforme, e só pode ser vivenciado como uma primordial dinâmica, original ímpeto do caráter poético:

Eu não sou quem fiquei; o meu delito
Lá anda atrás de forma mal formada
Pelo convés do vento, p´la amurada
Do mar interno e franco onde me agito.

Passaporte caduco...As fronteiras que invado
São migalhas de sombra e restos de sentido.
Tudo é fragmento em verbo diluído
Através do convés lentamente embalado.

Eu não sou quem, atado, coincide
Com foto de cartão de identidade.
Sou memória dum mundo que me invade,
Sou espaço que o ar prensa e divide.
José Martins Garcia (Salamandra, 1996)

Roteiros Reais


Será no próximo dia 26 de Novembro pelas 10:00 que a Real Associação de Lisboa realiza uma visita guiada ao Palácio Nacional da Ajuda no âmbito da rubrica Roteiros Reais.

De novo sob os holofotes da opinião pública pela polémica conclusão da ala norte, este Palácio foi residência oficial da Família Real Portuguesa entre 1861 e 1910. A Ajuda surge no local onde, depois do fatídico dia 1 de Novembro de 1755,  D. José instalou a sua residência, que ficou conhecida como a "Real Barraca". Palco de vários acontecimentos políticos, sociais e familiares, ficou para sempre consagrada como o Palácio dos Reis de Portugal, em Lisboa. Venha conhecer a interessante história da Ajuda, dos seus arquitectos, decoradores, e de quem o habitou, a Família Real Portuguesa.

Esta visita, que será guiada pelo nosso associado Joel Moedas Miguel e por Pedro Fortes da Silva, tem lugares limitados e um custo de € 10,00 por pessoa. O ponto de encontro será no Terreiro fronteiro ao Palácio.

Para mais esclarecimentos e inscrições contacte-nos através do endereçosecretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 81 15 ou presencialmente na nossa Sede nos horários habituais.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Quarenta anos passados


Quarenta anos passados sobre o falecimento do Senhor Dom Duarte Nuno, importa lembrar o pensamento e a acção deste nosso Príncipe.

É o que faremos no dia 3 de Dezembro, às 15:30, no Grémio Literário (Rua Ivens, 37, Metro: Baixa-Chiado), ouvindo os Profs. Doutores Pedro Soares Martinez e Fernando Amaro Monteiro. Entrada livre, sujeita à disponibilidade do local.

Após a sessão terá lugar um chá, opcional, presidido por SS.AA.RR. os Senhores Duques de Bragança e com o custo individual de 10,00 eur.

Para mais esclarecimentos e inscrições contacte-nos através do endereçosecretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 81 15 ou presencialmente na nossa Sede nos horários habituais.

domingo, 30 de outubro de 2016

Conjurados pela Causa Real



Irá realizar-se no próximo dia 30 de Novembro, no Hotel Lisbon Marriott (Avenida dos Combatentes, 45), o tradicional Jantar dos Conjurados promovido pela Causa Real. Este evento assinala a importância e o significado da Restauração da Independência de Portugal, acontecimento histórico que os monárquicos portugueses gostam de celebrar com a sua Família Real.

Sua Alteza Real o Senhor Dom Duarte lerá uma Mensagem aos Portugueses às 19:30, seguindo-se o jantar com a Família Real.

Será realizado um leilão de obras de artistas portugueses conceituados, sendo que parte do lucro do jantar reverterá a favor das Missionárias da Caridade (Madre Teresa de Calcutá).

As inscrições serão feitas, como de costume, presencialmente na sede da Real Associação de Lisboa (15:00-18:00) ou através da internet: secretariado@reallisboa.pt.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Da Importância da História e da Narração Identitária


CPLP
As sociedades não morrem, não só porque têm historiadores ou analistas ou narradores oficiais, mas também porque têm línguas e porque são narradas por elas. O conteúdo simbólico das línguas corresponde ao seu poder identitário, refletem o que proporcionam como nações variadas. 
                                       Apud Claude Hagège

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Ideias para a UE

Jyrki Katainen

In a fast-changing world, Europe needs new ideas and new initiatives to achieve long-term sustainable growth that will make the continent more resilient, more competitive, and more innovative. At the European Commission, we have been working hard to complete the Single Market, build out a Capital Markets Union, and strengthen growth with our flagship plans for investment. We are not operating in a vacuum, however, and are always eager to hear new proposals and suggestions, especially from a broad public.

In that context, we have been pleased to support the McKinsey Global Institute’s initiative to crowdsource ideas for growth-oriented reforms through its “Opportunity for Europe essay contest. It is very encouraging for us to see that, at a time of some public scepticism about European institutions, there is still a tremendous amount of enthusiasm for the European project, and high expectations for policy reforms.
The number of submissions to the essay contest, the range of the ideas that were aired, and the breadth of participation from people around the globe, all are causes for hope and optimism. This shows that, even in complicated times, there are many creative people— and not only in Europe—with strong ideas about the future of our continent, and its unique form of political and economic integration. It is very timely and important that we debate a comprehensive strategy for the European Union, together and constructively. (…)

Jyrki Katainen, Vice Presidente da Comissão Europeia, in Mckinsey Global Institute

Poética dos Mares IV

in JEM


Enquanto os poetas dizem o mar que nos fala, na interlocução do homem com o mar este torna-se um espelho que amplifica quer a nossa sensibilidade, quer as nossas tragédias mais fundas. Considerando a mole imensa do mar o homem é disposto descentradamente, seja por via da sua contemplação elemental e paisagística que nos dispersa e extasia, seja na produção estética dos nossos sofrimentos e tragédias. Pois o mar tem um pulsar e uma enormidade transcendente à dimensão humana. Acolhe ecos pessoais: salgado, amargo, queixoso, irado, bailarina. Mas não só, outros aspetos também como sepulcral, abismal, sombra perene, intemporal. É também lugar de maravilhoso, brilho, númen, que referem planos de existência tocando e transbordando a condição humana.
A voz e o modo do mar tendem a apresentar-se poeticamente em dualidade, nos extremos do sentimento, no êxtase estético ou na dor sentimental ou moral (mas passando pela náusea da necessidade e pelo constante sofrimento – imagem de nossas ânsias). É sobretudo sob o aspeto do sofrimento constante que aqui interpretamos a voz do mar, concentrando-nos, por ora, em Teixeira de Pascoaes.
A voz do mar representa, no seu bramir e marulhar, o continuado sofrimento humano e o seu derivado lamento:

Homem, eu bem conheço o eterno sofrimento!
Em nuvens, sobe ao céu meu constante lamento...
Teixeira de Pascoaes (Assírio & Alvim, 1998-1904)

Ou representando a dor e amargura que acompanha esse sofrimento nos dramas humanos:

Quem conhece, como eu, a tua grande dor?
Lágrimas de tristeza e lágrimas d'amor.
Nas minhas ondas sinto o vosso sal amargo!
Teixeira de Pascoaes (Assírio & Alvim, 1998-1904)

Todavia, além das desgraças humanas, das paixões salgadas e amargas, das tristezas que pontuam o trilho da vida humana, também existem, mais fundas, a tragédia e o mistério da vida e da morte - o humano naufrágio:

(...) há sepulcros também neste meu peito largo,
Insondável... Eu tenho a ciência do Mistério
Que há só no livro sepulcral dum cemitério ! (...)
Teixeira de Pascoaes (Assírio & Alvim, 1998-1904)

Para Pascoaes, essa tenção na voz do mar é reapresentada pela figura de Prometeu, que, como o homem, é agrilhoado constantemente ao sofrimento e à tragédia,

Ninguém como eu conhece o sofrimento humano.
Eu, o mártir sem nome, o ensanguentado Oceano,
Um outro Prometeu...
Teixeira de Pascoaes (Assírio & Alvim, 1998-1904)


Contudo, condenado e revoltado contra seus limites, como na tragédia de Ésquilo – Prometeu –, o mar lembra o homem que agrilhoado concebe perspetivas ulteriores à sua condição, procurando ultrapassá-la, e assim vive a expetativa quase desesperada da libertação, uma expetativa quiçá saudosa do futuro. Pelas palavras de António Botto essa voz acompanha os mais doces, verdadeiros e misteriosos enleios humanos:

(…) Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
(...)
António Botto (Presença, 1999-1941)

Mas partilhando essa privação em vida, essa escassez de plenitude, da qual sempre nos procuramos desprender por ilusão ou por promessa, as sonoridades e movimentos do mar permitem semelhanças humanas, com o choro e riso, a alegria e a tristeza, as limitações do homem, guardando contudo a sua tragédia mortal:

Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.
Chorámos, rimos, cantámos.
Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...
Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.
O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de aguas sem fim.
Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...
(…)

António Botto (Presença, 1999-1941)


Representa o mar poeticamente a mágoa, a rebeldia, a fúria e a ânsia, o desejo ardente e seu desespero, contido pelas duras fragas, e nisto constituindo para o homem imagem de seus modos limitados, de seu fado, desventura e término:

Já que o sol pouco a pouco se desmaia
E meu mal cada vez mais se desvela,
Enquanto a pena, a ânsia, a mágoa vela,
Quero aqui estar sozinho nesta praia.
Que bravo o mar se vê! Como se ensaia
Na fúria e contra os ares se rebela!
Como se enrola! Como se encapela!
Parece quer sair da sua raia.

Mas também que inflexível, que constante
Aquela penha está à força dura
De tanto assalto e horror perseverante!

Ó empolado mar, penha segura,
Sois a imagem mais própria e semelhante
De meu fado e da minha desventura.

Francisco de Pina de Melo (Of. Joseph Antunes da Sylva, 1727)

Na poesia de Alexandre Herculano revela-se sobretudo a acentuada dualidade do mar, entre o sonho simples e puro ou o terror que suscitam as águas marítimas. Uma dualidade que nos surpreende assustando-nos, pois ainda agora era o mar manso e resplandecente, e logo depois é furioso e intemperado. Junto ao mar folga o poeta e medita numa paz de sonhos bendizendo seu estado:

É tão suave ess'hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.
(...)

Alexandre Herculano (Europa-América, 1986-1838)

Mas, de seguida, já a nuvem que nos céus negra flutua cresce, e o vento varre a fraga nua com hórrido clamor, e os vagalhões nas arribas expiram furor. Ao poeta cobre-lhe o véu de tristeza, calou-se em seu hino à natureza e por seu sentimento voga em negruras o pensamento,


(...) despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano,
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor,

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcíone ao gemido,
Ao sibilar do vento.

Alexandre Herculano (Europa-América, 1986-1838)

Mas não há motivo para queixume pelas procelas, nem pelo roubo de miríades de estrelas que as nuvens densas apagam, nem pelo estourar dos bramidos poderosos. Diz o mar:

«Cantor, esse queixume
Da núncia das procelas,
E as nuvens, que te roubam
Miríades de estrelas,

E o frémito dos euros
[ventos de leste],
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Enquanto do éter puro
Descia o Sol radioso.

Tipo da vida do homêm,
É do universo a vida:
Depois do afã repouso,
Depois da paz a lida.

Alexandre Herculano (Europa-América, 1986-1838)


Procurando a analogia com o humano, para depois permitir-se, pela semelhança insinuada, correlacionar o seu ser desmedido ao homem, adianta ainda mais a voz do mar:

Se ergueste a Deus um hino
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar
(…)
a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»
(...)
Alexandre Herculano (Europa-América, 1986-1838)

Mas não é da intenção humana vogar entre os elementos, nem conceder o ser perante o horror ou adorar a natureza em seus portentos ou idílica mansidão. Por isto blasfema a voz que intenta que o homem se incline a essas formas. Responde o poeta ao mar, sustentando a dignidade humana:

(…) torva blasfémia
Não manchará seu canto!
Brama a procela embora;
Pese sobre ele o espanto;

Que de sua harpa os hinos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual óleo
Do nardo recendente.

Alexandre Herculano (Europa-América, 1986-1838)

Não está, pois, nesses excessos propostos pelo mar, o modo em que se proporciona a medida humana. Além e apesar de tão ríspidas dualidades e por tão diversos pareceres, sob o peso do espanto procura o homem encontrar sua medida e sua pertença, todavia, sem a grandiosa representação marítima, mas por nossa vontade, sensibilidade e inteligência, potências capazes de nos realizar autónomos dos elementos resplandecentes ou em fúria, e autónomos das enormidades materiais ou morais.
Miguel Torga também nos propicia uma exposição desta dramática dualidade do mar, entre a dimensão do fechado e do aberto, mas que nos distingue de sua natureza anfibológica, a ambiguidade desesperada de um mar encerrado nos seus limites. Por um lado, referindo os naúfragos, todos, estão estes de sombra tecidos e em sombra soterrados no coração ciumento de um mar fechado que os encerra, representando o bojo da morte, por outro lado mostra um mar que pode ser aberto e descoberto «Com bússulas e gritos de gajeiro!», como a vida, se subtraída às dualidades dos acessos de fúria e desespero e aos momentâneos idílios, mas conhecendo o operativo mar, esse modo «(…) salgado, lírico, coberto/ De lágrima, iodo e nevoeiro!». Ouçamos o poeta:

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...

Ela que és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um braço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússulas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrima, iodo e nevoeiro!
Miguel Torga (Tip. Gráf. de Coimbra, 1978-1946)