sábado, 11 de julho de 2015

Controvérsias

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 O indicador da OCDE recuou para Portugal, mas também para Alemanha, sugerindo que as economias estão a abrandar o seu ritmo de crescimento. O indicador compósito avançado da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), concebido para antecipar em seis a nove meses pontos de viragem na actividade económica em relação à tendência, recuou pelo segundo mês consecutivo para Portugal.
                                       




sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ca(u)sa Comum

A visionar AQUI


Artes

Entrevista a Marco Scarassatti* 

AG: Como encaras o binómio arte sonora/música enquanto instrumento de abordagem à tua prática artística?
Marco Scarassatti: De um lado eu gosto de falar que a Música é meu modo de estar no mundo, de perceber, fruir, pensar o mundo, é meu modo de agir e elaborar conceitos. Por outro lado, creio que meu trabalho se insere muito mais num conceito de Arte Sonora do que propriamente de Música, isso se pensarmos ela de forma estrita, da forma como essa produção sociocultural humana se consolidou ao longo de sua história. Entretanto, ao se considerar o quanto o fazer musical se expandiu, principalmente após a segunda metade do século XX, creio ser mais oportuno pensar hoje em Arte Sonora, Arte do Sons ou mesmo Sônica, ainda que a «posse» desse território, no primeiro caso, esteja muito mais sob o domínio dos artistas visuais que apreenderam o conteúdo material, conceitual e plástico do universo musical. É como se o conceito Música não comportasse mais as práticas que podem se considerar música.
Eu entendo que haja uma discussão sobre a natureza que distingue esses campos, mas eu prefiro pensar que a Arte Sonora emerge mesmo é como conceito e a partir de um processo de expansão de sistemas artísticos que se consolidaram historicamente com suas práticas sociais, estéticas, poéticas e políticas: as Artes Visuais e a Música. E por ter uma natureza de borda, a Arte Sonora permite uma dupla adesão a esses dois sistemas. Como conceito, considero-a mais inclusiva, inclui a própria Música e as Artes Visuais. É como a ideia da pele que interliga os nossos sentidos de contato com o mundo. Mesmo essa pele tem duas faces, uma que é tocada pelo mundo no qual estamos submersos, outra que é tocada por aquilo que internamente nos constitui. Nós nos constituímos como ser nessa passagem entre o interno e o externo e nos percebemos como ser no mundo, a partir dos nossos sentidos interligados.
E a abrangência do fazer musical, desde o que o senso comum conhece como música, passando pela relação de inserção e contágio desta com o visual, o contrato audiovisual e, por conseguinte, a utilização sistemática do ruído, música concreta e eletrônica, a música eletroacústica, a aproximação da música às demais linguagens e expressões, a paisagem sonora, o desenho de som no cinema, a música pop e sua apropriação, colagem e deformação pelos DJs, a radioarte, as esculturas sonoras, o circuit bending, música para celular, a criação de ambientes e instalações sonoras, os happenings, performances e ação política de intervenção sonora em espaços públicos; todas essas manifestações retratam a paleta de atuação artesanal, poética e conceitual daqueles que intencionam fazer do som seu veículo de expressão, filtro da realidade, leitura de mundo.
De alguma forma sempre me interessou na Música aquilo que não era música, aquilo que estava do outro lado da borda e que me obrigava a atravessar. A relação com o espaço físico, com a forma plástica, com o conceito; me interessa os sons indesejados na produção dos sons desejados, o instante de tempo que antecipa a música, que firma o acordo de separação entre o ordinário e o extraordinário. O som como gerador da forma e a forma como geradora do som.
AG: Para quem desconhece a tua prática sonora, poderias falar um pouco sobre os diferentes projectos em que estás ou estiveste envolvido?
MS: Eu sou formado em composição musical e, no conjunto, a minha busca está na construção poético-política de espaços sonoros, sejam eles miniaturizados, ambientais, territoriais, performativos ou simulados.
Uma parte importante nessa busca é tentar representar as sonoridades através de uma forma plástica e ao mesmo tempo dar a essa forma a possibilidade do som musical que a completa como estrutura. Tento compor essas estruturas com fragmentos de objetos encontrados, que contêm em si um som cristalizado em forma. Fora do contexto inicial, vinculado ao objeto, instrumento, conceito inicial do qual ele é proveniente, este fragmento abre-se na possibilidade de se juntar a outros fragmentos, outros objetos e, a partir daí, compor com eles uma forma complexa, composta por um aglutinado de pequenos símbolos que se desdobram em potência latente para uma sonoridade resultante. A esse aglutinado simbólico dou o nome de Emblema Sonoro.
O Emblema Sonoro, nesse caso, tenta ser uma composição musical em forma plástica, também sonora, literária, ou ainda uma tentativa de construção poética de um campo espacial pelas sonoridades relacionadas a objetos, imagens, textos, conceitos e histórias. Aglutinações simbólicas em formas plástica e sonora das memórias recolhidas em um percurso, que é o da criação dele próprio.
Não sou um Luthier, eu penso estar compondo quando construo formas sonoras. Particularmente procuro não afinar meus instrumentos seguindo qualquer padrão, tampouco repito as afinações, me interessa o desafio da afinação do grupo, não no sentido das afinações dos instrumentos em particular, mas na singularização dos instrumentos/performers e sua interação com o coletivo. Intervalo é território e cada instrumento inventado circunscreve o seu próprio território em cada situação na qual ele é empregado.
Nesse sentido tenho feito esse trabalho de construção de dispositivos musicais, que me ajudam a pensar sobre a música e sobre a improvisação. Vou destacar alguns aqui:
1) Tubal Cretino e o Flugel Sax Sretino: o primeiro tem uma história mais extensa, guardei durante anos a mangueira e o chuveirinho do banheiro da minha bisavó, queria fazer um instrumento da família dos cretinos do Smetak. Quase vinte anos depois, encontrei uma campana de um instrumento de sopro e a juntei a um tambor de um maculelê. Ele atravessou esses quase 20 anos até que ficasse pronto, aguardando a chegada de cada uma de suas partes. Já o Flugel Sax Cretino é feito de uma mangueira de jardim, uma campana de flugel e uma boquilha de sax alto. Fi-lo em 2013.
2) Tzim Tzum (2005), esse é um instrumento que também foi se transformando até chegar à forma atual. Em 2002, fiz uma escultura sonora para deixar na escola onde eu dava aulas, procurei no ferro velho as peças e criei a forma. Ela não durou muito; então peguei as rodas que compunham o objeto e fixei-as num eixo, dei o nome em princípio de Vórtice. Depois, com os estudos sobre a Cabala, em particular o mito de criação do universo, me deparei com o drama cósmico «tzim tzum», em que o criador tem de fazer um movimento de retração para poder criar espaço e consequentemente gerar a vida. Esse drama é representado por círculos concêntricos. Dessa forma, criei um emblema sonoro representando o drama e utilizei essas rodas para dar forma ao que eu vinha pensando, coloquei-o sobre uma caixa de isopor amarela, com ferros de construção fincados nela atravessando-a de fora para dentro. É um instrumento para ser amplificado por contacto, pode ser percurtido, ou simplesmente girado, pois gera um harmônico na rotação.
3) Harpa Paleolítica (2013) instrumento de cordas, feito com bambu, cabaça, ferros rosqueados e cordas.
Em relação ao espaço e a intervenção sonora no espaço, destaco esses trabalhos:
1) «Defasagem» (1995) é uma composição para 6 pianos e prédio. Foi o primeiro trabalho em que lidei com uma estrutura ambiental, um misto de instalação, happening e performance em forma de composição. Os pianos ficavam dentro das salas de aula e o público do lado de fora do prédio.
2) «rio» (2013) feito em parceria com Fernando Ancil. Desde que cheguei a Belo Horizonte, fiquei espantado quando numa caminhada pelo centro descobri que debaixo das ruas há uma quantidade enorme de rios canalizados que, em meio aos sons do trânsito e da cidade, ficam quase apagados. Pode-se ver esses rios através de grades que ficam no asfalto, como clausuras, em que ao fundo se vê o vulto do córrego em movimento. São 150 km de córregos canalizados, escondidos da população e que só são percebidos pelas grades expostas no asfalto das ruas. Ao nos aproximarmos delas, o canto do rio timidamente transpõe seus limites, mas sua sonoridade é engolida pelo trânsito e outros sons da cidade. Passei a gravar esses sons, desde 2011 e, no final de 2013, propus ao artista visual Fernando Ancil pensarmos em viabilizar uma intervenção desses sons no quotidiano da cidade. Dessa forma, nos aproveitamos dos altifalantes já instalados para se fazer a difusão de áudio de uma feira na cidade. «rio» é uma intervenção urbana que usa os sons captados desses córregos canalizados, amplificando-os através do sistema de som instalado num trecho da Avenida Afonso Pena, que é uma das principais da capital mineira; são mais ou menos 60 altifalantes dispostos ao longo de aproximadamente 250 metros da avenida. O intuito foi criar um leito de rio audível sobreposto aos sons da cidade através de um transbordamento acústico.
3) «Sonoridades Visíveis» (desde 2012). Nesse caso a ideia é lidar com imagens que remetam para uma sonoridade. Utilizo o stencil com a imagem do corpo de uma cigarra, daqueles que encontramos nas árvores. Quando encontramos na árvore esse «corpo» é porque a cigarra já cantou, penso ser a memória do seu canto. Pois bem, grafito em postes, muros e paredes essa imagem, que não é da cigarra a cantar, mas sim é a memória da cigarra que por ali já cantou.
4) Capacetes para deriva sonora. Atualmente tenho construído capacetes sonoros, que são dispositivos de escuta ambiental. Cada capacete produz um tipo de filtragem e, portanto, possibilita uma escuta diferenciada. Essa alteração na escuta mobiliza os outros sentidos e acabamos por nos tornar todo um ouvido em movimento. Com esses capacetes tenho feito derivas sonoras pela cidade, com grupos pequenos em que cada qual se deixa levar pelos sons que mais o afecta. Tenho feito também na forma de um percurso em que de tempos em tempos o público troca de capacete. Dessa forma, a música está em quem escuta e da forma com a qual escuta.
A atuação e interação com esses emblemas e dispositivos sonoros fez resultar em algumas experiências composicionais e improvisacionais, das quais eu destaco:
1) Sonax: O Sonax é um grupo de investigação musical criado por mim e pelo Marcelo Bomfim em 2003 e, desde 2005, contamos também com o Nelson Pinton. Em 2008, lançámos pelo selo Creative Sources Record o CD que leva o nome do grupo, cuja proposta é Comunicação pré-palavra/devires e sons, interação do sujeito-ambiente com os sonoros-objetos, na construção/intervenção (mito)poética do espaço sonoro; trabalho de criação de esculturas musicais e intervenções sonoras com live electronic em espaços públicos e privados; performance utilizando objetos plásticos e sonoros criados de resíduos e vestígios da sociedade contemporânea: caixas de madeira, tubos de PVC, sucatas, polias, molas, cordas e cravelhas. Na criação desses objetos as possibilidades de interatividade musical aliam-se à apreciação plástica. A performance é criada a partir do inventário dos fragmentos musicais extraídos das sessões de improvisação e interação com os objetos, com a manipulação desses sons eletroacusticamente e a relação dos mesmos com o espaço da apresentação.
2) Novelo Elétrico: Novelo Elétrico foi pensado como uma construção poética de espaços sonoros tendo como matriz a improvisação com instrumentos musicais não usuais, inventados e objetos situados entra a música e as artes visuais. A ideia surgiu a partir de dois desejos. Um deles foi o de dar um sentido ritualístico à prática, manter a hora e a forma de preparação, preparação da sala, do corpo, exercitar a respiração. O outro desejo foi o de realizar essa empreitada sozinho, de uma forma artesanal, dentro de casa e não de um estúdio e atuar como músico e técnico, na verdade entender tudo como uma coisa só. Dessa forma, eu mesmo gravei, toquei, editei e fiz a mixagem do trabalho. Somente a master não foi feita por mim, foi feita pelo Nelson, do Sonax.
O novelo é um emaranhado de fios que antecede a tecelagem, ou mesmo é posterior a ela, quando se organizam as sobras. Em princípio ele não é o objeto do fio, seu destino final, do ponto de vista do trabalho, mas se constitui como uma forma, um quase objeto, que sempre depende da maneira como é enrolado. Ascende ao estatuto de objeto-brinquedo pelo uso das crianças e felinos. Em cada um dos novelos a sala de gravação foi preparada de uma forma diferente, com os instrumentos a serem tocados espacializados e com os microfones posicionados. Um gravador digital ficava aberto para capturar os sons ambientais. Uma imagem pertinente ao processo é a do cinegrafista que posiciona a câmara para sair por trás dela e performar dentro do quadro filmado. Só que essa performance consistiu em fazer desprender dos objetos, sons que atuassem com os demais sons atuantes nesse campo sonoro.
Na improvisação geradora, todos os elementos presentes no campo audível da gravação foram incorporados e interagidos como elementos constituintes do fluxo musical, na constituição do espaço sonoro. Essa reunião de elementos espaçados temporalmente deu um sentido de profundidade ao campo; aliás, na improvisação, o espaço se constitui no decorrer do tempo. A improvisação inicial gravada, portanto convertida em áudio, já era um fio complexo e, como tal, foi esgarçado ao máximo de acordo com suas potencialidades. Essas potencialidades estavam dentro de um âmbito ligado ao tempo, ao gestual, à textura, à corporeidade, ao timbre, ao ruído, ao sentido de profundidade e a uma qualidade de ambiência. Penso que cada elemento sonoro foi levado ao seu extremo. Esse fio tornou-se novelo, e novelo pelo caráter artesanal do processo manual de feitura do trabalho, esse fio-áudio foi emaranhado, retorcido, enrolado numa forma de um novelo abstrato; transformado numa imagem-sonora mental, com elementos do espaço acústico da gravação e do entorno.
Cada novelo é um lugar inventado, um quase-objeto tridimensional, um espaço para ser ouvido e que é habitado pelos elementos que são performados e pelo corpo que performa e é apreendido na escuta como gesto. Se a música é um tempo dentro de um tempo, a ideia do novelo elétrico é que ele seja um espaço dentro do espaço da audição. O Novelo Elétrico foi lançado como CD, também pela Creative Sources, em 2014.
AG: Em que medida concebes esse conceito de política no âmbito de uma criação sonora na actualidade, e em que medida esse conceito se encontra ligado à noção ou conceito também de espaço sonoro?
MS: Eu penso que o som tem sempre uma implicação no espaço. Quando deflagrado, ele atua sobre o espaço emprestando-lhe o seu atributo de temporalidade e, ao mesmo tempo, se acomoda, se molda a ele, tomando-lhe emprestada sua dimensão e materialidade. A difusão de um som emana espaço que se sobrepõe ao espaço físico. Numa música os sons desprendidos atuam entre si e sobre o local, sobretudo criam um espaço a partir da interação entre essas sonoridades. Portanto, quando eu penso na construção e na percepção de um espaço sonoro, eu penso em como se apreende e como se pode constituir esse espaço através dos sons. Toda a criação sonora é para mim a criação de um campo espacial vinculado ao tempo e à interação entre as sonoridades dessa criação: intervalos, texturas, silêncio e gestos. E esses fatores implicam se espaço sonoro criado, experienciado e vivido, virá a ser contínuo, descontínuo ou fragmentado.
Dito isso, penso que o artista, quando cria algo, cria não só esse algo como também inventa um modo de fazê-lo e esse modo de fazê-lo fica impregnado na criação. Quando crio um emblema sonoro, um instrumento musical composto por fragmentos de objetos encontrados, retirados do seu contexto original para se construir algo novo, o que fica impregnado na criação é a possibilidade de que se faça e se pense um mundo em que os objetos possam continuamente trocar de função, de acordo o novo projeto. Cria-se a possibilidade de que se interrompa a cadeia de produção industrial para apenas usarmos o que já está fabricado, desmontando os objetos para dos seus fragmentos se inventar outras formas e coisas, com ou sem a funcionalidade primeira. O mesmo pode se dar com os conceitos e porque não com o próprio conceito de música. O conceito do que é música pode ser reformulado a cada novo projeto, a cada novo grupo que se constitui em torno da prática, do fazer musical.
Inventar um modo de fazer é também inventar um modo de estar e atuar no mundo e para mim isso é fazer política, um modo de organizar as ações, as percepções, o sensível num processo contínuo de troca, de partilha e de confronto. Quando falo da construção política do espaço sonoro, é que essa construção fica impregnada dos modos de organização das forças atuantes nesse espaço, ao mesmo tempo em que esse espaço sonoro inventa também um modo de organização da percepção e atuação nesse espaço. Penso também que o que está sempre em jogo é a transformação, por afecção, do público em uma comunidade de participantes que interrogam o próprio fazer artístico e para atuar também como criadores. A formação e ampliação dessa comunidade está na idéia de partilha dessas experiências e processos, e na contaminação por contato, seja em ambientes informais virtuais, como os nichos específicos das redes sociais, comunidades, grupos, ultrapassando esses limites, no investimento do próprio fazer artístico como experiência social, seja nas ruas ou nos espaços destinados a isso, e também nos ambientes formais, como na atuação na educação formal, escolas e universidades.
  

*Marco Scarassatti 

Artista sonoro, compositor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marco Scarassatti (Campinas, 1971) desenvolve pesquisa e construção de esculturas, instalações e emblemas sonoros.
Mestre em Multimeios e Doutor em Educação, ambos pela Univesidade de Campinas, possui artigos publicados nas áreas de Trilha Sonora, Educação Musical, Improvisação e Curadoria em Música Contemporânea.
É colaborador na revista eletrônica portuguesa Jazz.pt e autor do livro Walter Smetak: O Alquimista dos Sons (Editora Perspectiva/SESC), publicado em 2008.
Criou e participa do grupo Sonax, com o qual gravou pelo selo europeu Creative Sources Records o CD Sonax (2009). É autor ainda dos CDs Walter Smetak: O Alquimista dos Sons (2008), Novelo Elétrico (2014), Rios Enclausurados (2015).
  
Entrevista por

terça-feira, 7 de julho de 2015

Artes / Bucólica

3 leituras)
Miguel Torga
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.


Leia mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=427 © Luso-Poem
TAL
                                           Miguel Torga, Bucólica

Maria Barroso



A monarquia e os objetivos comuns à democracia



O desenho estrutural da nossa política resulta em frequentes irresoluções, dilações e retornos. Por um lado, as reformas e as regulações não têm sido nem ágeis, nem atempadas, nem faseadas de modo a suavizar alguns inconvenientes delas derivadas. Por outro lado, sem a perspetiva do longo prazo, o custo da mudança é maximizado e a eficácia política é minimizada, e, enquanto os recursos e as circunstâncias oscilam, os objetivos sociais são dispersados.
É necessário adicionar na nossa sociedade um eixo institucional favorável ao consenso estratégico, sem o qual a recuperação económica, o reforço da produção para a transação, a abertura externa e a modernização, a orientação do investimento público para o aumento da produtividade, a produção de pensamento estratégico, tão determinantes para o bem comum, oscilam, definham e se perdem.

Transformações positivas procedem por incorporação e não por exclusão I


Importa explicitar com clareza que se encontram perante as gerações presentes opções políticas fundamentais. Todos convergimos que o problema fundamental, que nos tem preocupado a todos, é político. É necessária uma democracia aprofundada, eficaz e credível, no que se refere à representação da nossa unidade, no que se refere à construção de alternativas e consensos políticos e no que se refere ao pensamento estratégico (proporcionando a constante abertura de oportunidades de realização social, ambiental e económica). Antes de ser esta uma crise financeira e económica, estamos ainda mais profundamente inseridos numa crise da sociedade que vivemos e da política que temos praticado.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Uma república I sem brandos costumes (com Mendo C. Henriques)

 





ExCertos

Estocolmo

«(...) existem países de "esquerda" que são muito desenvolvidos, por exemplo a Dinamarca e a Suécia», ou seja, monarquias...
 

do Observador

sábado, 4 de julho de 2015

A república I sem brandos costumes



Primeiro Ministro indigitado 

assassinado na sua chegada a Lisboa





Just when peace and calm had apparently been restored in Portugal, a grave event has occurred that will probably  have a disastrous effect on the situation. A telegram from Lisbon received this evening [May 17] states that Senhor Chagas, the new Prime Minister, was shot at and seriously wounded by Senator João José de Freitas. Senhor Chagas had just arrived at the Entroncamento railway station, coming from Oporto to take possession of  the Premiership. A large gathering was on the platform to meet him, and while shaking hands with and receiving the congratulations of his friends, Senhor Freitas broke through and fired several revolver shots at the new Premier. A struggle ensued and gendarmes fired on the assassin who was killed on the spot. Senhor Chagas was taken to hospital in a dying condition. It is feared, as  a result of this tragedy, that the trouble may recommence. There are already signs of a fresh outbreak.
                 The New York Herald, European Edition, May 18, 1915
Correction: June 4, 2015
An article in the “In Our Pages” column on May 18, recalling the shooting of the Portuguese primes minister in 1915, misspelled the name of the senator who shot Senhor Chagas. He was João José de Freitas not Senator Jean Freilas. The error was recently brought to light by a reader.

The structure guarantees it (???)

«The damned lies and liars and statistics that come with all this are merely the cherry on the euro cake. It’s done. Stick a fork in it. The smaller, poorer, countries in the eurozone need to get out while they can, and as fast as they can, or they will find themselves saddled with ever more losses of the richer nations as the euro falls apart. The structure guarantees it.»

Uma república III sem brandos costumes

Expetativa


Realidade


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Uma república II sem brandos costumes



Aqui

                                                                                                   Helena Matos e Iolanda Ferreira
Helena Matos e Iolanda Ferreira

Uma republica sem brandos costumes



A primeira República não teve uma vida fácil com mais de 40 governos nomeados em cerca de 16 anos. De resto assistiu-se a um pouco de tudo com Portugal a mostrar que não era um país de brandos costumes.

Intrigas, traições, massacres, intentonas revolucionárias, prisões, atentados a tiro ou à bomba, manifestações, assassinatos, confrontos e desacatos de toda a ordem. A primeira República teve um pouco de tudo isto e mais qualquer coisa.
O Governo que mais tempo se segurou na cadeira do poder aguentou pouco mais de 600 dias, e houve governos nomeados que nem tomaram posse por medo da reacção popular.
Uma confusão que desceu do Governo para a rua e que, antes da ditadura militar implementada em 1926, já conseguira gerar duas outras ditaduras que, por razões diferentes, pouco tempo se aguentaram na governação.
- See more at: http://ensina.rtp.pt/artigo/uma-republica-sem-brandos-costumes/#sthash.Dp9mNywt.dpuf

A primeira República não teve uma vida fácil com mais de 40 governos nomeados em cerca de 16 anos. De resto assistiu-se a um pouco de tudo com Portugal a mostrar que não era um país de brandos costumes.

Intrigas, traições, massacres, intentonas revolucionárias, prisões, atentados a tiro ou à bomba, manifestações, assassinatos, confrontos e desacatos de toda a ordem. A primeira República teve um pouco de tudo isto e mais qualquer coisa.
O Governo que mais tempo se segurou na cadeira do poder aguentou pouco mais de 600 dias, e houve governos nomeados que nem tomaram posse por medo da reacção popular.
Uma confusão que desceu do Governo para a rua e que, antes da ditadura militar implementada em 1926, já conseguira gerar duas outras ditaduras que, por razões diferentes, pouco tempo se aguentaram na governação.
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«A primeira República não teve uma vida fácil com mais de 40 governos nomeados em cerca de 16 anos. De resto assistiu-se a um pouco de tudo com Portugal a mostrar que não era um país de brandos costumes.

Intrigas, traições, massacres, intentonas revolucionárias, prisões, atentados a tiro ou à bomba, manifestações, assassinatos, confrontos e desacatos de toda a ordem. A primeira República teve um pouco de tudo isto e mais qualquer coisa.

O Governo que mais tempo se segurou na cadeira do poder aguentou pouco mais de 600 dias, e houve governos nomeados que nem tomaram posse por medo da reacção popular.

Uma confusão que desceu do Governo para a rua e que, antes da ditadura militar implementada em 1926, já conseguira gerar duas outras ditaduras que, por razões diferentes, pouco tempo se aguentaram na governação.
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                                                                                 Inês Forjaz


  • Tipo: Reportagem
  • Autoria: Inês Forjaz

  • A primeira República não teve uma vida fácil com mais de 40 governos nomeados em cerca de 16 anos. De resto assistiu-se a um pouco de tudo com Portugal a mostrar que não era um país de brandos costumes.

    Intrigas, traições, massacres, intentonas revolucionárias, prisões, atentados a tiro ou à bomba, manifestações, assassinatos, confrontos e desacatos de toda a ordem. A primeira República teve um pouco de tudo isto e mais qualquer coisa.
    O Governo que mais tempo se segurou na cadeira do poder aguentou pouco mais de 600 dias, e houve governos nomeados que nem tomaram posse por medo da reacção popular.
    Uma confusão que desceu do Governo para a rua e que, antes da ditadura militar implementada em 1926, já conseguira gerar duas outras ditaduras que, por razões diferentes, pouco tempo se aguentaram na governação.
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    A primeira República não teve uma vida fácil com mais de 40 governos nomeados em cerca de 16 anos. De resto assistiu-se a um pouco de tudo com Portugal a mostrar que não era um país de brandos costumes.

    Intrigas, traições, massacres, intentonas revolucionárias, prisões, atentados a tiro ou à bomba, manifestações, assassinatos, confrontos e desacatos de toda a ordem. A primeira República teve um pouco de tudo isto e mais qualquer coisa.
    O Governo que mais tempo se segurou na cadeira do poder aguentou pouco mais de 600 dias, e houve governos nomeados que nem tomaram posse por medo da reacção popular.
    Uma confusão que desceu do Governo para a rua e que, antes da ditadura militar implementada em 1926, já conseguira gerar duas outras ditaduras que, por razões diferentes, pouco tempo se aguentaram na governação.
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    A primeira República não teve uma vida fácil com mais de 40 governos nomeados em cerca de 16 anos. De resto assistiu-se a um pouco de tudo com Portugal a mostrar que não era um país de brandos costumes.

    Intrigas, traições, massacres, intentonas revolucionárias, prisões, atentados a tiro ou à bomba, manifestações, assassinatos, confrontos e desacatos de toda a ordem. A primeira República teve um pouco de tudo isto e mais qualquer coisa.
    O Governo que mais tempo se segurou na cadeira do poder aguentou pouco mais de 600 dias, e houve governos nomeados que nem tomaram posse por medo da reacção popular.
    Uma confusão que desceu do Governo para a rua e que, antes da ditadura militar implementada em 1926, já conseguira gerar duas outras ditaduras que, por razões diferentes, pouco tempo se aguentaram na governação.
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  • Tipo: Reportagem
  • Autoria: Inês Forjaz
  • ExCertos

    António Borges Coelho
    «(...) a resistência dos Açores aos Filipes durante três anos é conhecida, mas praticamente poucos portugueses, excepto os açorianos, terão consciência disso. Foi uma resistência terrível.»
                                                   

    quarta-feira, 1 de julho de 2015

    segunda-feira, 29 de junho de 2015

    A New Social Agenda For The Next Five Years (Discussão ainda em aberto)


    «Today Europe is boredom… it is submerged by numbers and without soul. As long as Europe cares more about fishing rights than human beings swimming in our sea’s Europe has no soul.» 
                                                                           Matteo Renzi 2014

    «The focus of the debate around risks of poverty and social exclusion has almost exclusively been upon the income dimension. For many “at risk groups” but particularly young people, isolated older people and the long-term unemployed, public policies must become more concerned with promoting involvement in civil society and social engagement. In some ways this amounts to refocusing and renewal of the principles behind the Social Investment Package (SIP/2013) and the Beyond GDP Initiative.


    Social progress demands greater attention to support for families with children, especially through investment in affordable and high quality childcare. Early investment in the well-being of children is crucial for their development and transition into adulthood. A suite of family policies building on universally available support to families with children is the foundation of the most successful systems.»

    Erika Mezger, A New Social Agenda For The Next Five Years
    2 July 2014

    Controvérsias



    Since the first half of the 1980s at the latest, Western democracies have entered a new phase of economic liberalization, but our findings suggest that the methods for the causal analysis of convergent liberalization policies cannot be identical with the methods that have been used for analyzing the development. 


    .


    Poesia (Mar)


    O vermelho por dentro
    
    Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
    dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar é
    negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
    água negra tudo é vermelho por dentro.
    
    Os corpos eram negros
    sobre o mar a água era de noite
    não se via o vermelho por dentro
    os corpos não se viam
    eram barcos com os ventres todos negros
    e as línguas eram de águas muito rentes
    A sangue não sabia
    não se via o vermelho por dentro
    o céu a água envolvia
    tudo envolvia nos vermelhos dentros
    e os mares todas as noites estavam negros
    negros por dentro
    E a água volvia pelo céu tão negra
    e à noite por dentro do mar todo vermelho
    a noite era vermelha
    e os barcos negros por dentro
    E nos corpos a água negra era vermelha por dentro
    e eles estavam envolvidos
    e
    

    Ana Hatherly

    Artes

    Infante D.Luís


    Consequências

     

    «A monarquia portuguesa continha a constituição, a livre circulação de ideias e a democracia parlamentar, mas sem o consensualismo régio o país desembocou em desordem e, consequentemente, em réplica, traduziu-se em ditadura como forma tipificada de governo.»

    quinta-feira, 25 de junho de 2015

    A magia da República


    «A magia da República foi morrendo sem que o Estado se tornasse mais representativo, a nação mais confiante, os mercados mais prósperos, a sociedade mais robusta ou as pessoas mais livres.»

    José Braga de Macedo, José Adelino Maltez, Mendo Castro Henriques, Bem Comum dos Portugueses, Gepolis-Vega, 1999.

    The people perspective on mergers and acquisitions [e privatizações]



    «The announcement of a merger or acquisition can have varied reactions, but you will usually find a general feeling of uncertainty – employees worrying about losing their jobs, anxious managers struggling to maintain control in a shifting environment, leaders stressing over tough decision that need to be made, people at every level losing sleep over where they stand in the organisation. The impact on employees can be significant if the reorganisation of the business is not handled effectively.
     
    From there the real impacts on an organisation itself start to show – from unexpected defections of key talent, declines in productivity, morale and engagement to the loss of customers and poor market performance.

    During any merger or acquisition effort, there are at least two groups of employees involved, often coming from organisations with distinctly different cultures and styles. The way company leaders work with employees during the transitional period sets the tone for the new corporate culture being developed.»


    domingo, 21 de junho de 2015

    Acerca da poesia de Thomaz Ribeiro

    Escreve no Prefácio Feliciano de Castilho


    Imagens de Portugal


    Os mapas



    «Na verdade, toda a história pode ser contada através de quem roubou os mapas de alguém. Cada descoberta e guerra, ascensão e queda de impérios, tudo está ligado à espionagem cartográfica.»

    Sherlock Holmes, Elementary, Série 3, Episódio 6 (11m23s-11m30s)

    sábado, 20 de junho de 2015

    Um formidável instrumento de análise com iniciativa portuguesa


    http://www.globalstat.eu/en/homepage.aspx

    A nefasta consequência da proteção estatal

    http://www.ffms.pt/en/foundation-management_bodies-scientific_council-2009_2013

       «O patriotismo foi frequentemente invocado para proteger dos estrangeiros as empresas nacionais - na concorrência no mercado e na aquisição de capital social. Mas veja-se o exemplo de França, onde essa atitude é corrente, com governos de direita e de esquerda: só debilitou a economia francesa. (...)
       A mais nefasta consequência da protecção estatal aos centros de decisão nacionais talvez tenha sido o amolecimento na gestão das empresas mantidas sob o manto formal ou informal do Estado. Na era da globalização - que está aí, goste-se ou não - é fatal a falta de uma forte concorrência. Mais tarde ou mais cedo, esta virá de fora, encontrando as empresas pouco preparadas para a enfrentar.» [Veja-se o caso SATA versus companhias low cost nos Açores...]

    Francisco Sarsfield Cabral in «O preço do nacionalismo económico»@ Tentar Perceber, SOL, 19 de Junho 2015

    Pluralismo



    «A comunicação social, poder e pilar fundamental da democracia, cresceu em infra-estruturas e na circulação de jornais e revistas, bem como numa variada oferta de canais de televisão e de rádio e de novos meios online. O pluralismo informativo, a liberdade de opinião e a igualdade de acesso aos meios de comunicação social estão garantidos.»
                              José Ribeiro, Jornal de Angola, 14 de Junho 2015  

    Mar na Poesia

    Thomaz Ribeiro

    terça-feira, 16 de junho de 2015

    É melhor reverem a campanha eleitoral em curso




    «A missão do FMI, que esteve em Lisboa entre os dias 4 e 12 de junho de 2015, para a segunda avaliação à economia portuguesa após o fim do programa de assistência financeira, estima, na publicação das declarações finais da visita, que o crescimento do PIB seja de 1,6% em 2015, 1,5% em 2016 e 1,4% em 2017 (manutenção das previsões de 18 de maio).



    Para o mercado de trabalho, o FMI prevê que Portugal registe uma taxa de desemprego de 13,4% em 2015 (revisão em alta face aos 13,1% das previsões de 18 de maio), 12,9% em 2016 e 12,5% em 2017.



    Relativamente ao défice orçamental, o FMI estima que este registe diminuições de 3,2% em 2015 para 2,7% em 2016 e 2,5% em 2017.


    Quanto à dívida pública, o FMI estima que esta diminua de 126,5% do PIB em 2015 para 124,3% em 2016, atingindo 122,5% do PIB em 2017.»

    Já anteriormente...

    «O Conselho das Finanças Públicas (CFP) recusa-se a avaliar programas eleitorais de partidos políticos, alegando não ter ainda condições para tal. O órgão presidido por Teodora Cardoso respondeu assim à polémica e, ao contrário do que o PDS defendia, não vai avaliar as propostas do cenário macroeconómico do documento de 12 economistas pedido pelo PS.» Publico

    domingo, 14 de junho de 2015

    Não precisamos


    Palavras duras



     
    «(...) [A] exibição de um poder imperial unanimista dos dezoito contra um, com motivações que se percebe não terem qualquer elevação, dignidade, ou sequer utilidade, é, como todas as exibições de força, muito preocupante. Assusta, e bem, quem ainda tiver uma réstia dessa coisa maldita na Europa, o sentimento nacional antigamente chamado "patriotismo". E se um dia for Portugal a estar do lado perdedor? E se um dia os eleitores portugueses votarem num governo “errado”, como pode acontecer em democracia? E se um dia todas as políticas nacionais tiverem de ir a visto em Bruxelas (já vão em parte)? E se um dia a União se começar a imiscuir nas nossas fronteiras atlânticas, como já se imiscui no que os nossos pescadores podem ou não pescar? E se um dia algum burocrata europeu entender que Portugal deve ser reduzido a um país agrícola e turístico e fazer uma fábrica for proibido, se competir com a quota francesa ou espanhola? E se um dia os nossos europeístas (como já o dizem) considerarem que as decisões do Tribunal Constitucional são “ilegais” face ao direito comunitário? E se um dia houver um qualquer sobressalto nacional que nos coloque em confronto com um qualquer Schäuble e os seus dezassete  anões? 
     
     Nessa altura lembrar-nos-emos certamente da Grécia.»
     
    JPP

    Dueto

    Alexandre Herculano

    «(…) na solidão, a saudade de uma existência cheia de amor e de esperanças, a vergonha do suplício afrontoso e o temor da morte lhe não consentiam velar-se diante de si próprio com a máscara que a vaidade e o orgulho põem na face humana ainda nas mais terríveis situações, para que a vida seja contínua farsa, da qual o coração é o ator mentiroso desde o berço até ao sepulcro.»


    Machado de Assis

    «Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volitam que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.
     
    Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que sou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me argúam esse defeito: fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; do outro lado sede de nomeada. Digamos: - amor da glória.»